11 agosto 2010

Tirando as rodinhas...

Ganhei a minha primeira bicicleta quando eu tinha uns cinco ou seis anos. Meu irmão, mais novo que eu um ano, tinha uma pequenininha desde os dois, e nós brincávamos juntos com ela. Mas aí eu fiquei maiorzinha e ganhei uma Caloi Ceci: cor de rosa, com cestinha branca e paralamas. Algum tempo depois, meu irmão também teve que trocar de bike: ganhou uma Caloi Cross, vermelha com os acessórios em amarelo fluorescente. Nossa! Que bicicleta...
 
Andamos muito no térreo no prédio onde morávamos, depois na quadra do outro para onde fomos. Meu pai, de algum jeito, arrumou tempo pra acompanhar todo o processo: levanta uma das rodinhas, depois levanta a outra; tira uma das rodinhas, depois tira a outra. Aliás, ele acompanhou o processo e todos os inevitáveis tombos que vieram junto com ele, cujos resultados minha mãe tratava com uma mistura concentrada de água, gelo e sal. Dóia mais do que machucar (sem exagero!), mas funcionava. No outro dia, já estávamos zerados e prontos pra outra.

Depois de alguns anos, andar na quadra do prédio não era mais suficiente. Começamos a perturbar meu pai para sair, fazer trilhas com as bicicletas. Não me lembro como ele conseguiu fazer isso, pois a única bicicleta que eu me lembro de ter visto com ele foi uma Peugeot preta de estrada, seis velocidades, com o câmbio no quadro. Uma máquina, para os meus parâmetros da época, mas impossível de guiar na terra. Imagino que ele tenha arrumado uma mountain bike, ou coisa parecida, porque ele nos levou para fazer várias trilhas – ou, pelo menos, era assim que eu chamava os caminhos de terra batida em torno do estádio Serra Dourada, em Goiânia, ou as estradas das fazendas dos meus avôs.

E eu fazia isso todo fim de semana, empolgadíssima, na minha Caloi Ceci. Que, obviamente, logo deixou de ter cestinha, paralamas, banco branco... E começou a fazer mais barulho que o Fusquinha 69 que hoje meu pai tem pra matar (ou aumentar) a saudade de quando ele tinha a idade que hoje eu aqui relembro.
 
Quando eu fiz dez anos, pedi dinheiro para todos da família que me perguntaram o que eu queria ganhar de aniversário. Juntei aqui, ali, mais uma ou outra mesada que tinha sobrado... Gastei toda a minha lábia pra convencer meus pais a me ajudarem a comprar uma bicicleta. Minha mãe pagou um terço, meu pai um terço, e eu paguei meu terço até com moedas, se brincar, mas consegui: comprei uma Giant Yukon, ma-ra-vi-lho-sa, preta com detalhes em azul metálico. (Hoje, entendendo de bicicletas, sei que provavelmente ela era mesmo giant (gigante) pra mim, pois era um quadro S pra uma pessoinha de 1.40m... Bom, ainda bem que o banco era regulável com blocagem!)

Trilhas, mesmo, quase não fiz com a tal Yukon. Mas adorava andar a cidade toda nos finais de semana! Quando comecei o segundo grau (hoje ensino médio, certo?), ia para a escola todos os sábados de bicicleta, pois assim eu fazia as provas no tempo mínimo permitido e voava para o treino de natação (treino de transição, invertido..?). E, depois da natação, demorava até o último minuto de sol pra voltar pra casa...

A Yukon foi roubada, e muitos anos depois veio a Specialized, cuja história eu resumi no post da corrida. Quando terminei a faculdade, ao invés de trocar de carro, escolhi trocar de bicicleta – e assim ganhei, no começo de 2006, a Cervélo Sóloist Carbon que até hoje é a minha bicicleta de estrada. Um ano e meio depois, já com seis meios ironman completados e dois pódios em campeonatos mundiais de 70.3, achei que merecia uma bike de contra-relógio – então, usei todo o dinheiro da demissão (acordada, claro) da construtora e mais algumas economias para comprar a minha Pinarello Montello FP8, que ainda uso.

Mas bicicletas não são feitas para andar em quadras, ou em rolos...
Eu também não.
 
Por mais feliz que eu tenha me sentido no dia 6 de abril, quando subi pela primeira vez pós-tombo na minha Cervélo, para fazer um bike fit com o Rogerinho... Por mais gratificante e quimicamente estimulante (estou falando de endorfinas!) que seja um pedal de três horas e meia no rolo, cheio de tiros que fazem doer até músculos que nós nem sabemos que temos... Por mais socialmente convidativa que seja a aula de triathlon da Rosana Merino na Cia Athlética todas as terças e quintas pela manhã... Nada se compara à sensação de liberdade e plenitude que um pedal na estrada proporciona! (Ok, talvez uma corrida em trilha... Mas isso fica para um próximo post.)
 
Hoje, eu senti isso. Voltei a pedalar na estrada de Mogi com as meninas do RM Elite Team: Vanessa Gianinni, Talita Saab, Thaty Porto e Carol Furriela. A Coach RM acompanhou o trajeto de moto, e deu bronca quando eu me empolguei em uma ou outra subida, quebrando o ritmo do giro (as meninas tinham que soltar, depois de uma série massacrante de pista).
 
Cheguei ao final do pedal inteira, mas guardei a energia para os próximos treinos. Tomei cuidado com os obstáculos, com os carros, com as entradas e saídas da rodovia... Mas medo, não tive, nem nenhuma outra dificuldade. E ainda terminei o giro com essas lembranças maravilhosas da minha infância, da adolescência, e até dos treinos de pedal pelas montanhas de Boulder...

Resumindo em uma frase, tirada de uma famosa propaganda:
AMO MUITO TUDO ISSO!

7 comentários:

Pablo Bravo disse...

Oi Ana tudo bem?

Como é bom ler algo tão positivo de alguém que passou a maior barra, e agora enfrentando os "demônios" de frente, sem medo.

Parabéns, és um exemplo para todos.

Abraço

Xampa disse...

Emocionante.
Essa é uma das historias que precisam ser lidas diversas vezes.
Pense se não vale a pena dividir tudo isso em um livro. Dá até filme.
Sucesso.

Bel disse...

Ana, é tão lindo e profundo o que v. escreveu, que na primeira vez que li achei melhor não dizer nada. Tudo que dissesse seria tão pouco... Hoje voltei ao seu blog para ler sobre Penha e relendo "tirando as rodinhas" achei que eu precisava dizer pelo menos o qto é maravilhoso saber de cada pedaço da sua experiência, cada superação,cada projeto. Ir descobrindo sua riqueza de espírito e sabedoria da vida. Torcendo muito por você na retomada. Sempre. Bjs

Franz disse...

Bonita a história toda e que coisa ótima de ler! Parabéns pela garra e determinação e que a sua prova de volta seja tão boa e divertida qto deve ter sido a primeira!

Carol Santos disse...

Hey, Ana!

Tenho cinco coisas para dizer:

1- Obrigada pelo elogio!
2- Acompanho seu blog! Seguidora assídua!
3- Mãe devolvida! =)
4- Vc é demais! Sempre foi e sempre será! (Disse o óbvio, mas de vez em quando é bom ouvir! hehe)
5- Quando virá andar de bicicleta comigo por Grenoble e redondezas?!

Super bjinhos!

Zefé disse...

Foi emocionate ler o que você escreveu. Tenho muito orgulho de ser seu tio. Desejo muito sucesso no seu retorno às competições. Estarei torcendo sempre por você. Beijos.

Lisandra disse...

Vc escreve com uma maestria nata, tem emoção e conteúdo. Adoro os seus textos!!!
Se estiveres pensando em visitar a Carol quero ir junto...rs